19.11.09

"...observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura."

Recomendo a leitura deste artigo no Portal Literal:

Vale mais que um trocado
Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi.


Leia aqui.


17.11.09

Na segunda de manhã tive o prazer de reler uma rônica do Rubem Braga (O conde e o passarinho, no livro 200 crônicas escolhidas, da editora Record), que eu adoro.
Compartiho um trecho abaixo:

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração.

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens – o conde e o passarinho – foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.

Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o conde. O conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres o conde é um industrial, o conde é conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho, e isso é gentil, ser um passarinho. [...]


...

Comentei aqui quando li a crônica pela primeira vez.


26.10.09

A minha memória (leia-se aqui as lembranças da minha vida) é uma das coisas que mais tem valor pra mim.
Quando eu era criança, ia muito à casa da minha avó Idalete. Tenho lembranças maravilhosas dessa fase, da casa dela, da família toda, que sempre me fez sentir MUITO amada. São tantas as histórias, tantas as coisas bonitas que fizeram por mim, que nem dá pra falar. Mas sempre que eu visito a vó Idalete, a gente se lembra de alguma coisa – como as cantorias dentro do fusca do vô Luiz, os laços que a Sarita (tia, mas nunca usamos o 'tia' à frente do nome dela) fazia nos meus cabelos, as danças da Xuxa com a tia Vanilde na sala da casa, as festas de comunhão, a piscina da Turma da Mônica, os potes de massa de bolo que nós crianças disputávamos para lamber as sobras (e ela, bem sabiamente, chamava só um por vez, em segredo, para que pudesse lamber o pote sozinho) e a hortinha, na frente da casa, com suculentos moranguinhos que eu amava, colhia e comia.
Aquela casa da minha infância não existe mais (só na memória), meus avós construíram uma casa nova no lugar da antiga. Pois bem, minha amada vó Idalete acabou de me ligar (ela mora em Brusque, onde morei durante minha infância) para compartilhar comigo uma coisa muito especial: o vô Luiz fez uma nova horta e plantou morangos. E ela, ao telefone, me disse que os moranguinhos começaram a brotar. São ainda bem pequenininhos, mas a vó queria que tu fosse a primeira a saber.
Tô aqui escrevendo, com lágrimas nos olhos (de feliz, vó!), porque esse tipo de coisa, a lembrança dela, o cuidado com a memória, a preocupação em me contar, é tão importante e bonito pra mim que nem sei dizer.
Obrigada, vó. Por ter me dado tantas lembranças bonitas e por continuar alimentando-as – com tanto e sincero amor.



15.10.09

Que uso faria da palavra, hoje? Queria vestir poesia como roupa fresca. Queria combinar palavras e cores, tom sobre tom – o tom de sua saia; o tom de sua narrativa.
Queria páginas e páginas em branco para colori-las de perfume azul.
Queria uma biblioteca inteira de amores bem vividos, de beijos guardados (jamais esquecidos), de toques e carinhos e olhares furtivos que eram só seus, tesouro de uma vida feliz.
Queria escrever, em areia e nuvem, sobre um sorriso que não lhe saía da memória, mas não encontrava a palavra, não encontrava o tom, e sonhava com o dia em que escreveria poesia e acalanto.
O sorriso ou os olhos? Do que gostava mais? Nem sabia e não importava. Era carne e era força oculta em delicadeza e gestos gentis.
Era poesia ainda não lida.
– a desvendar.


1.10.09

O peito aquietou-se. No correr de dias mansos, a espera – já não aflita. As dúvidas de volta, sempre à volta, mas sem machucar.
Sem doer sou eu seguindo os dias, bordando sonhos na barra da saia que balança ao vento. Na saia que conta o tempo, calendário de mim.
Vermelho nas unhas, nos sonhos, no sangue.
Leveza, chuva que não incomoda. Durmo bem, acordo cansada, acumulo leituras e preguiças minhas.
Sorrio. É meu trunfo.


24.9.09

oníricas 1

Nesta noite, sonhei que levei um tiro. Do tiro, do acontecimento, não me lembro de nada. Como foi, quem o fez, por que o fez. Só me lembro do sonho a partir do momento em que estava com aquele buraco no peito. O tiro foi exatamente onde fica o chacra cardíaco, muito perto do coração. Eu não sentia dor, mas estava com medo de morrer. Queria ir a um hospital retirar a bala, mas um amigo meu dizia que não adiantaria, eu iria morrer. Mesmo assim, eu queria ir, tentar me salvar. E passei o resto do sonho tentando chegar a um hospital, com aquela ferida no peito. Não estava sangrando e eu continuava sem dor, mas foi me dando falta de ar e era cada vez mais difícil respirar. O sangue que saíra havia secado, formando uma casca no lugar em que havia passado a bala (grande, pouco maior que uma moeda de um real), e eu tinha medo de me mexer demais e "abrir a ferida". Na busca pelo hospital, parei em uma universidade, no setor errado. Depois, tinha dois caminhos a escolher: um, de chão de areia, se chamava Estrada do Inferno (tão amarelo quanto ficou Sidney ontem depois da tempestade de areia); o outro era de asfalto. Não sei qual dos dois eu tomei. Depois, congestionamento na estrada, mais demora para chegar, cada vez mais eu temia morrer. Estava mesmo achando que não teria jeito de retirar a bala, que ela estava muito profunda, mas eu não podia desistir de tentar salvar minha vida.
Acho que me acordei sem ter conseguido chegar a um hospital.

(ui.)


31.8.09

A função do leitor/1

Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.

Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.

Muitio caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.

Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela.

Eduardo Galeano n'O livro dos abraços (2 ed. Porto Alegre: L&PM, 2009. p.20)


11.8.09

Doris, minha tão cara Doris,
Fizeram-me lembrar de ti, e quis te escrever. Te dizer do dia bom que tive, feliz e muito cheio de carinho.
Dizer de confusões e não saberes que escorrem aqui dentro, sem rumo, pr'um sem fundo que me põe perdida no caminho a seguir, no passo a trilhar, na palavra a dizer, no querer a aceitar, no beijo a negar.
Sim, Doris, por mais estranho que pareça. E contraditório. Decisões temerosas, coisa bem feminina, de que entendes muito bem.
Hoje tenho até flores ao redor. Tenho novos bilhetes para adoçar a memória com palavras e afeto. Levo uns novos sorrisos, brilho nos olhos, bons abraços.
E tu? Ainda te lembras de mim? Ainda te animas com minhas parcas palavras? Esperas ansiosa uma nova carta que diga apenas nas entrelinhas – esse espaço em que só tu navegas, com desenvoltura e domínio, capitã no teu mar de poesia.
Eu, Doris? Ando não querendo falar de mim. Não sabendo me dizer, não gostando do que digo, das palavras, sempre fracas, a tentar definir sentimentos imperiosos, teimosos, às vezes; como lidar com eles?
Ensina-me, Doris? Tu, que tens tanto domínio dos sentires. Tu, feita só de amor e sonho, que desconheces o medo e o receio, que entendes apenas de se entregar à vida.


31.7.09

Quando perco o sono,
invento pra minha madrugada o sonho que eu quiser.


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