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31.8.09
A função do leitor/1
Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muitio caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela.
Eduardo Galeano n'O livro dos abraços (2 ed. Porto Alegre: L&PM, 2009. p.20)
Daise :: 13:28
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11.8.09
Doris, minha tão cara Doris,
Fizeram-me lembrar de ti, e quis te escrever. Te dizer do dia bom que tive, feliz e muito cheio de carinho.
Dizer de confusões e não saberes que escorrem aqui dentro, sem rumo, pr'um sem fundo que me põe perdida no caminho a seguir, no passo a trilhar, na palavra a dizer, no querer a aceitar, no beijo a negar.
Sim, Doris, por mais estranho que pareça. E contraditório. Decisões temerosas, coisa bem feminina, de que entendes muito bem.
Hoje tenho até flores ao redor. Tenho novos bilhetes para adoçar a memória com palavras e afeto. Levo uns novos sorrisos, brilho nos olhos, bons abraços.
E tu? Ainda te lembras de mim? Ainda te animas com minhas parcas palavras? Esperas ansiosa uma nova carta que diga apenas nas entrelinhas – esse espaço em que só tu navegas, com desenvoltura e domínio, capitã no teu mar de poesia.
Eu, Doris? Ando não querendo falar de mim. Não sabendo me dizer, não gostando do que digo, das palavras, sempre fracas, a tentar definir sentimentos imperiosos, teimosos, às vezes; como lidar com eles?
Ensina-me, Doris? Tu, que tens tanto domínio dos sentires. Tu, feita só de amor e sonho, que desconheces o medo e o receio, que entendes apenas de se entregar à vida.
Daise :: 20:04
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